
Projeto. Atualmente, Cristina Lopes trabalha na captação de recursos e parcerias para 'Marta', cinebiografia da jogadora de futebolFOTOS: ARQUIVO PESSOAL
Audiovisual
De Matão para o mundo do cinema
Cristina Lopes transformou estratégia e visão de mercado em uma carreira de destaque na Conspiração, uma das produtoras mais importantes do país
Texto de Mariluci Schiavetto
Quando um filme emociona a milhões de espectadores, conquista prêmios internacionais ou chega às principais plataformas de streaming, um outro trabalho importantíssimo é desenvolvido além do realizado por trás das câmeras. É nesse universo que atua a matonense Cristina Lopes. Sócia e diretora comercial da Conspiração, uma das maiores produtoras independentes da América Latina, ela transformou a habilidade de criar relacionamentos e desenvolver negócios em uma carreira consolidada no setor do audiovisual brasileiro.
A Conspiração acumula números expressivos: mais de 50 longas-metragens, 30 séries, 45 documentários, mais de 300 prêmios e cerca de 30 milhões de espectadores nos cinemas. A empresa coproduziu 'Ainda Estou Aqui', vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional e do Globo de Ouro de Melhor Atriz – Drama (Fernanda Torres), e acumula dez indicações ao Emmy International, recorde entre produtoras independentes da América Latina. Os projetos da Conspiração já estrearam nos principais festivais de cinema do mundo, como Cannes, Berlim, Sundance, Veneza e Toronto.
Cristina lidera a área comercial da produtora, atuando no relacionamento com clientes, captação de recursos, patrocínios, negociações e posicionamento estratégico da empresa. Em diversos projetos também assume a produção executiva, função que acompanha todas as etapas de uma produção, do planejamento ao orçamento, da formação das equipes à entrega final.
Embora resida em São Paulo desde a década de 1980, Cristina nunca perdeu os laços com Matão. Filha de Marilena e Wladimir Rodrigues Lopes, ela fala dos pais com carinho e admiração: "Meu pai era um verdadeiro lorde; racional, generoso e um leitor voraz. Minha mãe era uma força amorosa; linda, inteligente, alegre e uma grande cozinheira".

Casados por 56 anos, Wladimir e Marilena constituíram uma família baseada no respeito, no diálogo e no incentivo aos sonhos dos filhos. Wladimir faleceu em abril de 2020; Marilena, em setembro de 2021. "Eu e meus irmãos – Mônica, Fábio e Adriana (Pita) – somos resultado dessa união. Tivemos o privilégio de crescer com pais presentes, que sempre respeitaram nossas individualidades e nos apoiaram em todas as fases da vida", afirma Cristina, que faz questão absoluta de manter os vínculos familiares: "Sou mãe orgulhosa da Nina e uma tia apaixonada pelos meus sobrinhos Giovanna, Iury, Giullia, Christiano, Marina e Natália. Apesar da distância, sempre estive presente e próxima".

RAÍZES QUE PERMANECEM
Os ensinamentos recebidos em casa seguem como referência em sua vida pessoal e profissional: "A principal influência dos meus pais foi a forma como se relacionavam com as pessoas. Aprendi com eles a generosidade, o cuidado, a delicadeza, o compromisso com as responsabilidades". Outra grande inspiração foi a avó paterna, Honorina Bambozzi. "Viúva aos 33 anos, ela criou os três filhos e, aos 54 anos, ficou paraplégica. Ainda assim, enfrentou as dificuldades com coragem e independência até sua morte, aos 75 anos, deixando um legado de força e perseverança", cita Cristina.

O compromisso dos pais com o trabalho voluntário também marcou a história da família Lopes em Matão. Wladimir e Marilena integraram o Lions Clube por mais de 50 anos e receberam, individualmente, a Medalha Melvin Jones, a maior honraria concedida pela instituição em reconhecimento aos relevantes serviços prestados à comunidade. Marilena também coordenou, durante muitos anos, a campanha de doação de medicamentos, desenvolvendo um importante trabalho em parceria com os médicos do município.
BOAS LEMBRANÇAS
Cristina recorda uma Matão movimentada, onde a convivência social, o esporte e a cultura faziam parte do cotidiano. Os bailes da Sorema, os carnavais e a tradicional confecção dos tapetes de rua em Corpus Christi marcaram sua infância. Uma das lembranças mais especiais envolve justamente essa celebração religiosa. "Minha avó Honorina morava ao lado da Igreja Matriz e, durante toda a minha infância, participei da preparação dos tapetes de rua. Primeiro ajudávamos a tingir a serragem e depois passávamos a madrugada montando os tapetes", recorda.
O esporte também teve papel importante em sua formação. Aos 13 anos, Cristina começou a jogar voleibol; posteriormente, participou de competições federadas e dos Jogos Regionais, como levantadora da equipe matonense, até ingressar na faculdade. "Mais do que medalhas, o vôlei deixou ensinamentos. Aprendi compromisso, disciplina, trabalho em equipe, inteligência emocional, tolerância para as derrotas e valorização dos momentos de vitória. Recentemente retomei contato com a Tininha Leite, minha grande parceira de time", conta.

Atualmente, ela também se reencontra com colegas do antigo 'Grupão', como é conhecida a Escola 'José Inocêncio da Costa'. Desde 2016, Cristina participa de reuniões da turma e celebra a oportunidade de reviver amizades construídas na infância e adolescência: "Apesar de cada um ter seguido um caminho diferente, os anos de formação criam um vínculo que nunca se acaba. Rever Cátia Mastropietro, Flavinha Passarini, Claudia Beozzo, Verinha Barros, Maria Lydia Chiozzini, Marcinha Pires, Marcelo Novaes, Nelsão Antoniosi, Luis Antonio (Liza) Bitante, Marco Antonio Cadioli, Tutinha Schiavetto, Marcelo Fregnan, Nelsinho Picchi, Marco Brandão, Osvaldinho Lazaro, José Henrique Calegher e Mario Faria é sempre um momento repleto de boas memórias. Um desses amigos, Fábio Gimenez, se tornou meu namorado, numa dessas histórias inesperadas e surpreendentes que a vida proporciona".

O INÍCIO NO AUDIOVISUAL

A escolha pela Publicidade levou Cristina a ingressar na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), em São Paulo. Ainda no primeiro ano de faculdade, conseguiu estágio em uma agência de publicidade, no departamento responsável pela produção de comerciais para televisão. Foi ali que passou a frequentar os sets de filmagem e as ilhas de edição, descobrindo o universo que sua carreira acompanharia. Pouco tempo depois, percebeu que desejava estar do outro lado do processo criativo. Deixou a agência e ingressou na Jodaf, uma das maiores produtoras de filmes publicitários da época, onde atuou na área de negócios, no relacionamento com agências e marcas e na coordenação geral de projetos. "Foi uma verdadeira escola de produção", resume. Sempre em busca de novos desafios, Cristina decidiu ampliar sua formação com uma experiência internacional. Em 1994, fez um ano sabático e mudou-se para Nova York, onde estudou no Hunter College e mergulhou na intensa cena artística da cidade. A vivência ampliou sua visão de mundo e abriu novos caminhos profissionais.


A CONSOLIDAÇÃO
Pouco tempo após retornar ao Brasil, Cristina recebeu convite para integrar a equipe da Conspiração – até então, uma produtora fundada por jovens cineastas cariocas que buscava ampliar sua atuação no mercado publicitário paulista. Sua trajetória na empresa começou em 1996 e acompanhou o crescimento da produtora, ocupando os cargos de diretora comercial, diretora executiva geral de Publicidade, vice-presidente de Publicidade e Entretenimento de Marca até se tornar sócia. "Me orgulho de ter contribuído para consolidar a Conspiração como uma das maiores produtoras do Brasil e da América Latina", afirma. Em sua constante busca por aperfeiçoamento, entre 2016 e 2017, Cristina cursou MBA em Gestão de Empresas Criativas na Berlin School of Creative Leadership. O programa internacional teve módulos realizados em Berlim, Xangai, Tóquio, San Francisco (Vale do Silício) e Nova York, proporcionando contato com diferentes mercados, culturas e modelos de inovação.

GRANDES PRODUÇÕES
Nos últimos anos, Cristina passou a se dedicar também à área de entretenimento, atuando como diretora executiva comercial de Patrocínios e Parcerias, sem deixar de lado os projetos publicitários. Um dos principais exemplos dessa atuação foi o longa-metragem 'O Auto da Compadecida 2'. A equipe comercial da Conspiração viabilizou patrocínios de empresas como Vale, Brahma, Santa Helena e TikTok, fundamentais para o financiamento da produção. Como contrapartida foram desenvolvidas ações publicitárias integradas à narrativa do filme, fortalecendo tanto a obra quanto as marcas parceiras. "A repercussão foi expressiva: mais de quatro milhões de espectadores nos cinemas e excelentes resultados para as marcas envolvidas nessa associação", destaca.


Atualmente, Cristina trabalha na captação de recursos e parcerias para 'Marta', cinebiografia da maior jogadora da história do futebol brasileiro. Com estreia prevista para abril de 2027 nos cinemas e exibição na TV Globo antes da Copa do Mundo Feminina, que será realizada no Brasil, o projeto reforça o compromisso da produtora com histórias brasileiras de relevância cultural e esportiva. "O futebol feminino desperta cada vez mais interesse e a Marta representa tudo o que há de melhor no esporte", afirma.
FASE HISTÓRICA
Para Cristina, o audiovisual brasileiro vive uma fase histórica: "As premiações internacionais de 'Ainda Estou Aqui' e 'O Agente Secreto' colocaram o país em um patamar muito elevado. O desafio agora é continuar contando nossas histórias, refletindo nossa diversidade e riqueza cultural em filmes, séries, documentários e programas de TV". Ela acredita que outra transformação já está em curso: "Estamos vivendo agora a chegada da Inteligência Artificial (IA), que está mudando nossa forma de trabalhar. Nosso desafio tem sido aprender e incorporar essas mudanças, preservando a essência autoral dos nossos projetos".
Após mais de três décadas de carreira, Cristina diz que realizou praticamente tudo o que imaginava quando escolheu trabalhar com audiovisual. Conheceu diversos países, participou de grandes produções, acompanhou revoluções tecnológicas e trabalhou com profissionais que admira. Seu objetivo agora é seguir participando de projetos culturais relevantes, capazes de emocionar e impactar positivamente a vida das pessoas. E quando um projeto termina? "A sensação é de contentamento. Mas ela dura, no máximo, um dia. Logo outro projeto já está começando. Quando eu estava decidindo o que faria da vida, queria uma profissão em que nenhum dia fosse igual ao outro. Acho que fiz a escolha certa", conclui Cristina.