Marcelo ManciniSaí de Matão há mais de 20 anos para fazer faculdade. Desde então, construí minha trajetória profissional na área de mobilidade urbana e, nos últimos 15 anos, trabalho com planejamento de transportes públicos no Rio de Janeiro. No último mês de junho fui convidado a participar, pela quarta vez, de um evento chamado 'Prefeitos do Futuro', um encontro que reúne gestores municipais de diversas regiões do país para discutir liderança, inovação e soluções para os desafios das cidades. O que mais me chamou atenção foi a oportunidade que os prefeitos tiveram de sair, ainda que por alguns dias, da intensa rotina da gestão pública para conhecer experiências diferentes, trocar ideias e refletir sobre o futuro de seus municípios.
Para preparar um material sobre urbanismo e mobilidade para prefeitos de cidades de diferentes portes, tive que pensar em soluções que atendessem tanto a uma metrópole como a um município do interior. E, durante a preparação da palestra, pensava em soluções possíveis para Matão, de forma que pudesse falar com prefeitos de cidades do mesmo porte. Compartilhei, então, algumas reflexões sobre mobilidade, vitalidade urbana, segurança percebida e adaptação climática para gestores de cidades dos mais diversos portes. E elas enfrentam desafios semelhantes. As respostas, porém, podem seguir caminhos diferentes. Podemos criar espaços voltados para a circulação e o armazenamento de automóveis ou investir em lugares que valorizem o encontro das pessoas, a convivência, a caminhada, o comércio local e a vida urbana.
Uma das histórias mais marcantes que guardo dessas participações aconteceu quando um prefeito, após conhecer outras experiências e refletir sobre diferentes possibilidades de uso de um canteiro central, ao invés de construir só estacionamento, criou uma área de lazer com ciclovia e espaços de convivência. O que me marcou naquela experiência foi a mudança de perspectiva do projeto: em vez de perguntar quantos carros caberiam naquele espaço, passou-se a perguntar quantas pessoas poderiam aproveitá-lo. Essa talvez seja uma das reflexões mais importantes quando pensamos o futuro das cidades. Quais são os lugares que as pessoas escolhem para permanecer em nossas cidades? Quais são os espaços que ajudam a criar memórias, encontros e conexões?
Em Matão, o Parque Ecológico 'Laert José Tarallo Mendes' é um excelente exemplo de como espaços públicos de qualidade são valorizados pela população. Basta observá-lo nos finais de tarde para perceber como ele se tornou um ponto de encontro para famílias, jovens, esportistas e pessoas de diferentes idades. Isso me faz pensar em quantas outras oportunidades podem existir para ampliar essa rede de espaços de convivência e fortalecer ainda mais a vida da cidade. Afinal, mesmo na era digital, os espaços de encontro continuam sendo importantes. Cidades também precisam oferecer lugares que convidem as pessoas a permanecer, conviver e criar conexões. Essa reflexão também se conecta a um tema que apareceu diversas vezes durante o evento: a segurança pública.

Cidades precisam oferecer lugares que convidem as pessoas a permanecer, conviver e criar conexões
Quando pensamos em segurança urbana, é comum que a primeira imagem seja a de câmeras, monitoramento ou policiamento. Todos esses elementos são importantes. Mas existe uma dimensão da segurança que muitas vezes passa despercebida: a presença das pessoas. A urbanista Jane Jacobs chamava de 'Olhos da Rua' a presença constante de pessoas utilizando os espaços urbanos. Ruas movimentadas, calçadas agradáveis, comércio ativo e espaços públicos bem frequentados criam uma espécie de vigilância natural, fortalecendo a sensação de segurança e pertencimento. Talvez por isso, os lugares que mais gostamos de frequentar sejam justamente aqueles onde encontramos vida urbana: pessoas caminhando, conversando, praticando atividades físicas ou simplesmente aproveitando o espaço público.
Outra reflexão importante surgiu a partir das discussões sobre adaptação climática. Em todo o país, cidades estão redescobrindo o valor da natureza como parte da infraestrutura urbana. Áreas verdes, jardins de chuva e parques de absorção vêm sendo utilizados não somente para tornar as cidades mais bonitas, mas também para melhorar a drenagem, reduzir enchentes e aumentar o conforto urbano. Quando observo experiências como a de Curitiba, que transformou áreas sujeitas a alagamentos em parques amplamente utilizados pela população, penso no enorme potencial que nossas 'lagoas secas' de Matão possuem para desenvolver soluções criativas e adequadas à sua própria realidade quando não estão cheias. Não se trata de copiar modelos. Trata-se de observar boas experiências, compreender o que funciona e adaptá-las ao contexto local. Talvez esta seja a principal lição que levo do 'Prefeitos do Futuro'.
As cidades mais interessantes não são necessariamente as maiores, as mais ricas ou as mais famosas. São aquelas que conseguem valorizar suas características, criar identidade própria e oferecer espaços onde as pessoas queiram viver, caminhar, encontrar amigos, praticar esportes e construir suas histórias. Ao participar mais uma vez desse encontro, voltei com a mesma convicção que tenho carregado ao longo da minha trajetória profissional: boas cidades não são construídas somente por grandes obras. Elas também são construídas por boas ideias. E muitas vezes as melhores ideias surgem justamente quando olhamos para nossa própria cidade e nos perguntamos, com curiosidade e imaginação, que novos lugares, encontros e oportunidades podemos criar para as próximas gerações.
Marcelo Mancini é arquiteto e urbanista